Caixa de texto: FOLHA DE LONDRINA, FOLHA 2—2 de maio de 2006
Folha de Londrina

Terça-feira, 02 de Maio de 2006

ENSINO - O mundo através dos livros
A professora e contadora de histórias Jaqueline Sampaio explica que os livros

nem sempre têm que ter ‘função pedagógica’, o prazer pelas letrinhas pode nascer

de outras formas.

 

Fotos: Karina Yamada

Caixa de texto: Jaqueline Sampaio: 'Hoje vivemos um tempo muito imediatista, como se estivéssemos sempre lidando com o computador e a televisão. Com a literatura, a história é outra'
Caixa de texto: Fantoches usados por Jaqueline Sampaio para contar histórias: literatura de forma cada vez mais lúdica
Caixa de texto: ''A literatura não tem que ter uma 'função pedagógica'. Ela deve nos ajudar a sonhar, a refletir''. Com uma fala ousada, se considerarmos as metodologias convencionais para o uso da literatura nas escolas, a professora Jaqueline Sampaio, de Londrina, vem trilhando um caminho que busca cativar cada vez mais as crianças dentro do universo literário. Como uma boa contadora urbana de histórias, ela já aprendeu que o mais importante é aprender a ouvir para perceber a reação da platéia ouvinte, e assim, estar mais preparada para interagir com ela. ''Hoje vivemos um tempo muito imediatista, em que as pessoas querem respostas rápidas, como se estivéssemos sempre lidando com o computador ou a televisão. Com a literatura, a história é outra. É preciso aprender a reelaborar com sensibilidade o que se lê. Acho que há um exagero da oralidade. Estamos falando muito e ouvindo pouco'', defendeu. 

Além de trabalhar com escolas públicas e particulares, incluindo consultorias na área de literatura em Londrina e região, Jaqueline faz contação de histórias, aos sábados à tarde, na Livrarias Porto. ''As crianças ficam encantadas com as histórias e os pais também acabam se rendendo a esse universo criativo'', afirmou. 

Para o ensino da literatura, ela destaca que é necessário ''seduzir as crianças'', abusando dos recursos que aguçem os sentidos sensoriais, como o cheiro, o tato e o paladar. Se a história é sobre a Tia Anastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, por exemplo, por que não levar para a sala de aula bolinhos de chuva? 

A concorrência direta com a televisão e o computador também não é vista como um problema para ela. ''Até agora, essas ferramentas ainda não interagem com contato físico e não têm cheiro... É um mundo das imagens em movimento, mas o professor é mais do que isso. Ele é real e está próximo. E precisa tirar vantagem dessa proximidade'', argumentou a professora, que também desenvolve um trabalho voltado para a área de ''literatura e mídia''. 
Na avaliação de Jaqueline, os novos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), objetivam o desenvolvimento da oralidade do aluno para que através disso ele possa a aprender a se manifestar, o que é bom, mas limita o incentivo à criatividade, favorecendo os livros que tenham ''que ensinar alguma coisa'', o que acabaria gerando dificuldades do ensino da literatura para as crianças na escola. 

''Muitas pessoas criticam a leitura do Harry Potter, mas milhares de crianças leram os livros da série que têm em média 700 páginas. É um produto da mídia, mas que se desmembrou em jogos, álbuns de figurinha e até comunidades do Orkut, criando o que se chama hoje de 'fansfiction', onde os fãs se divertem escrevendo possíveis desdobramentos das histórias'', comentou. 

''A literatura permite transgredir a linguagem com textos sem pontuação ou parágrafos, por exemplo, além de exercitar uma interpretação de texto que favorece ao conhecimento das sutilezas da linguagem'', acrescentou.
 

Ela também destacou que leitura é hábito que precisa ser cultivado desde a infância e critica a típica desculpa, nos dias de hoje, até mesmo entre os professores, da ''falta de tempo para ler''. ''Pode-se ler um livro de imagens, um poema, e até mesmo um versículo bíblico pode ser refletido'', disse. A falta de dinheiro para a aquisição de livros também pode ser contornada, na sua avaliação: há livros de qualidade em sebos, nas escolas as editoras fornecem lançamentos gratuitamente, além de haver no mercado boas editoras populares que vendem livros mais baratos. E para cultivar o hábito da leitura, não custa lembrar que o caminho mais simples é o das velhas e boas bibliotecas. 

Serviço: 

- No dia 13 de maio (sábado), das 15h30 às 17h30, haverá contação de histórias na Livrarias Porto (Shopping Catuaí). Mais informações sobre o trabalho de Jaqueline Sampaio no site http://jaquelinesampaio.sites.uol.com.br/.
 
 
Ana Paula Nascimento
Reportagem Local
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Tertúlias           Jaqueline Sampaio

Que a voz do livro e meus afetos façam você sonhar